Por que, em vez de usar um túnel de vento e fazer o ar passar ao redor do veículo analisado, não colocar o próprio veículo em movimento e observar como ele “corta o ar”?
Durante muito tempo foi exatamente assim que se trabalhou, antes de os túneis de vento virarem o padrão: os veículos iam para a estrada ou para o circuito com pequenas fitas presas à carroceria - como aparece, por exemplo, no filme “Ford v Ferrari”.
O problema é que testar a aerodinâmica no “mundo real” dificulta repetir as mesmas condições (principalmente as climáticas), o que torna bem mais complicado medir com precisão o efeito das alterações feitas no veículo.
Por isso, é natural que os túneis de vento sejam tão usados: neles, o controle do ambiente é total - algo essencial para entender como as mudanças no veículo interferem nos resultados.
Ainda assim, por mais eficientes que sejam, túneis de vento custam caro para construir e operar e não reproduzem completamente a condução real. No fim das contas, o carro fica parado e quem se move é o ar, o oposto do que acontece na prática.
Dos trens aos automóveis
É aí que “entra em ação” o Catesby Tunnel, no Reino Unido. Ele foi inaugurado em 1898 como um túnel da malha ferroviária britânica e permaneceu em operação até 1966, quando os trens deixaram de passar por ali.
A estrutura foi erguida com cerca de 30 milhões de tijolos e tem 2,7 km de extensão - praticamente uma reta perfeita -, além de um gradiente de inclinação de apenas 0,006%.
Diante dessas características, a Totalsim, empresa especializada em estudos de aerodinâmica, enxergou ali a chance de transformar o local em um túnel de vento sem… vento.
Uma questão de consistência
O projeto teve início em 2013 e levou quase 10 anos para ficar pronto - quase seis décadas de abandono exigiram intervenções de recuperação no túnel -, mas o resultado compensou.
Não por acaso, ele é apenas um de dois túneis desse tipo em todo o mundo e desempenha suas funções quase de maneira perfeita.
Quem afirma isso é Jon Paton, da Totalsim, ao destacar: “o mais importante para os testes é a consistência e a repetição (…) É daí que vêm os dados de alta qualidade”. Como o túnel é um ambiente altamente controlável, garantir esses dois pontos não é um desafio.
Essa avaliação de Jon Paton também aparece nos resultados do primeiro teste feito no Catesby Tunnel, com um Mazda Dpi de competição (IMSA) da Multimatic Motorsports.
Depois de várias passagens a 120 milhas por hora (cerca de 193 km/h), os dados aerodinâmicos obtidos foram idênticos aos alcançados em túneis de vento tradicionais e nas simulações em computador.
Segundo Larry Holt, fundador da Multimatic Motorsports, “Comparado com os túneis de vento convencionais, este é melhor porque é real (…) o Catesby Tunnel permite avaliar o desempenho aerodinâmico de um veículo no «mundo real».
Larry Holt acrescenta que “Num túnel de vento o automóvel está parado e o vento é soprado sobre ele por um ventilador, por baixo do carro um tapete rolante move-se a uma velocidade coordenada para simular a estrada (…) é muito sofisticado, mas o automóvel continua parado”.
Não serve só para a aerodinâmica
Embora permita realizar medições aerodinâmicas sem depender das enormes e potentes ventoinhas, o Catesby Tunnel também pode receber outros tipos de testes com automóveis.
Ali dá para avaliar o desempenho dos carros, os sistemas de refrigeração, o comportamento acústico e até fazer testes de emissões - tudo isso dentro de um túnel com mais de 100 anos!
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