Águas-vivas pertencem ao oceano. É isso que a maioria das pessoas presume - água salgada, um risco na praia, algo que você encontra ao entrar no mar nas férias. Não algo à deriva em um lago.
Dados novos de um levantamento europeu realizado em 17 países mostram que essa ideia não se sustenta tão bem.
Desde 1880, uma água-viva vem se espalhando por lagos, reservatórios e lagoas do continente. E quase ninguém parece ter reparado.
A água-viva de água doce mais comum
O animal é Craspedacusta sowerbii, a água-viva de água doce com distribuição mais ampla no mundo.
Provavelmente originária da bacia do rio Yangtzé, na China, ela foi identificada pela primeira vez fora dessa área em um lago ornamental em Londres, em 1880.
De lá para cá, a espécie atravessou seis continentes. Seus pólipos minúsculos e fases dormentes “pegam carona” em plantas aquáticas, nas pernas de aves aquáticas e em objetos submersos transportados entre corpos d’água.
Na Europa, os registros já vão da Espanha e da Itália até a Finlândia e a Rússia, com populações confirmadas em lagos, reservatórios e lagoas ornamentais.
Em número de avistamentos confirmados de Craspedacusta sowerbii no mundo, a Europa fica atrás apenas da América do Norte.
O que o levantamento revelou
Uma equipe liderada pelo Dr. Guillaume Marchessaux, da Universidade Aix-Marseille (AMU), quis entender o quanto esse animal de fato passa despercebido.
Para isso, os pesquisadores conduziram uma pesquisa multilíngue pela internet durante 22 meses em 17 países europeus.
As 1,388 respostas expuseram um contraste marcante. Mais de 80% das pessoas não souberam nomear a espécie.
Apenas 33% a reconheceram como não nativa. E quase metade - 49% - afirmou já tê-la visto no mar.
Águas-vivas marinhas dominam as notícias
Esse último número intrigou a equipe. Craspedacusta sowerbii é estritamente de água doce. Ela não vive em oceanos, estuários nem em ambientes salobros. Ainda assim, metade dos participantes a colocou, com segurança, na praia.
Segundo os pesquisadores, isso se explica por um viés da mídia. Águas-vivas marinhas aparecem com frequência em fotos de notícias e em documentários de natureza. As de água doce quase não recebem atenção.
Assim, quando se fala em “água-viva”, o padrão mental tende a ser água salgada.
Essa confusão é um ponto central do artigo. A equipe de Marchessaux descreve C. sowerbii como uma invasora críptica.
A espécie está estabelecida há mais de um século e hoje ocorre em dezenas de países. Mesmo assim, continua amplamente invisível para o público que compartilha os mesmos ambientes aquáticos.
Florações de águas-vivas que inquietam
Entre as pessoas que encontraram a água-viva, a reação mais comum foi de encantamento. Participantes a chamaram de bonita (21%), sublime (18%) e delicada (18%) - termos que não costumam acompanhar uma espécie invasora.
O sentimento, porém, mudava diante de um evento em massa. C. sowerbii pode, de repente, florescer aos milhares durante semanas quentes do verão.
Águas-vivas translúcidas, do tamanho de uma moeda, podem tomar uma lagoa inteira. Mais da metade dos respondentes disse que a cena as deixou nervosas.
Uma picada, em geral, inofensiva
C. sowerbii não é “projetada” para ferir pessoas. Entre os 8% dos respondentes que relataram terem sido picados, 56% não sentiram absolutamente nada. Dor intensa praticamente não apareceu nos dados.
A reação do público cai em um meio-termo incomum.
A água-viva desperta curiosidade e é interessante de observar; em grandes quantidades, pode causar desconforto. Ainda assim, para seres humanos, a espécie é em grande parte inofensiva.
“A espécie é percebida como uma curiosidade estética, e não como uma ameaça física direta”, escrevem os autores.
Experiência pessoal e atitudes do público
Para entender o que molda a opinião pública, a equipe montou um modelo estatístico. A expectativa era que fatores demográficos - idade, gênero, escolaridade, formação científica - tivessem maior peso. Nenhum deles teve.
O que melhor indicou se alguém achava que a espécie merecia atenção oficial foi algo simples: se essa pessoa já tinha visto uma.
A observação direta, e não um capítulo de livro, determinou o quanto o animal seria levado a sério.
“No caso de uma espécie pouco divulgada, a experiência pessoal se sobrepõe à informação científica na formação da opinião pública”, observaram os pesquisadores.
O resultado tem implicações práticas para a forma como invasores aquáticos são comunicados.
Uma questão ecológica em aberto
Se C. sowerbii causa danos aos ecossistemas ainda é uma questão em aberto. Estudos anteriores indicaram que florações de águas-vivas podem reduzir o zooplâncton - pequenos crustáceos que sustentam as cadeias alimentares de água doce - por meio de predação.
Também podem existir efeitos adicionais que ainda não foram totalmente explicados.
Experimentos em escala maior sugeriram que até densidades modestas de águas-vivas podem provocar um aumento acentuado de algas à medida que o zooplâncton diminui.
Uma reorganização desse tipo na teia alimentar pode, de forma silenciosa, redefinir um lago.
Implicações mais amplas do estudo
A equipe sustenta que as políticas europeias atuais para espécies invasoras deixam passar esses invasores “discretos”.
Espécies carismáticas - vespas asiáticas, lagostins-sinal, mexilhões-zebra - ganham comunicados à imprensa e planos de ação. As menos chamativas, não.
É essa lacuna que o levantamento busca reduzir. Os pesquisadores defendem que órgãos gestores e grupos de conservação usem mais plataformas de ciência cidadã, nas quais banhistas e pescadores podem registrar um avistamento em segundos.
A tendência é que o aquecimento das águas acelere essa necessidade. Uma análise de cenários climáticos prevê que temperaturas mais altas tornem as florações de águas-vivas mais frequentes, o que significa mais registros em mais lugares ao longo das próximas décadas.
Antes deste trabalho, ninguém havia medido o quanto o público europeu realmente compreendia a espécie. A resposta é: muito pouco.
A pesquisa indica o que pode reduzir essa distância - avistamentos diretos, registrados por observadores comuns, em tempo real.
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