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Turfeiras, carbono e reumedecimento: o novo mapa de dúvidas da ciência

Dois pesquisadores analisam solo em campo aberto com tablet e drone sobre vegetação rasteira.

Reumedecer uma turfeira drenada e o carbono deveria permanecer no lugar. Essa tem sido, há anos, a premissa por trás de grande parte da restauração de turfeiras: elevar o lençol freático, interromper as emissões e seguir adiante.

Agora, quase 500 cientistas de 54 países colocaram essa suposição lado a lado.

O que surgiu foi uma lista de questões que a área ainda não consegue responder - bem maior do que se imaginava - e, pela primeira vez, com consenso sobre quais são essas lacunas.

Cofres subterrâneos de carbono

Turfeiras são ecossistemas encharcados e com pouco oxigénio, nos quais o material vegetal morto se acumula mais depressa do que se decompõe.

Ao longo de milénios, esse acúmulo dá origem à turfa: um material denso, saturado de água e repleto de carbono armazenado.

Embora cubram apenas 3 a 4 por cento da superfície terrestre do planeta, elas guardam quase um terço de todo o carbono do solo na Terra.

Segundo uma avaliação de grande referência, as turfeiras armazenam mais carbono no solo do que todas as florestas somadas.

Por causa desse peso desproporcional, elas ganharam um apelido funcional: cofres de carbono.

Quando a turfa está em boas condições, atua como sumidouro de carbono, mantendo gases presos no solo saturado por milhares de anos. Quando é degradada, o sentido do processo inverte-se.

Um roteiro começa a ganhar forma

Uma equipa internacional tentou, agora, delimitar com precisão o que a ciência ainda não compreende sobre turfeiras.

O estudo foi liderado pela Dra. Alice Milner, professora associada na Royal Holloway (Universidade de Londres).

Milner e os colegas enviaram uma consulta aberta a investigadores de turfeiras em todo o mundo, pedindo que indicassem as perguntas sem resposta mais urgentes.

As respostas chegaram de 467 pessoas, distribuídas por 54 países. Em seguida, um painel menor de especialistas votou quais questões deveriam ser priorizadas.

O produto final foi uma lista de 50 perguntas de investigação prioritárias, organizada em cinco temas - uma agenda que a área não tinha até aqui.

Quando sumidouros de carbono viram fontes

Cerca de 12 por cento das turfeiras do mundo já estão degradadas, sobretudo porque foram drenadas para agricultura, silvicultura ou obtenção de combustível.

Ondas de calor, incêndios florestais e a queda do lençol freático também podem causar o mesmo impacto por conta própria.

Quando isso ocorre, as turfeiras deixam de absorver carbono e passam a libertá-lo.

Atualmente, estima-se que solos de turfa drenados respondam por 5 a 10 por cento de todas as emissões anuais de dióxido de carbono causadas por ação humana.

Parte dessa perda é gradual - carbono escapando à medida que a turfa seca se decompõe. Outra parte é abrupta, como os incêndios de turfa em combustão lenta que já arderam durante meses na Indonésia e no Ártico russo.

Pontos de viragem ainda desconhecidos

Os cientistas ainda não sabem em que momento uma turfeira degradada chega a um ponto em que a recuperação deixa de ser possível.

Os limiares críticos - por exemplo, quanto aquecimento ou seca uma turfeira consegue suportar antes de se transformar de forma permanente numa fonte de carbono - continuam sem definição.

Algumas turfeiras resistem a secas que destroem áreas vizinhas. Entender o que torna essas sobreviventes diferentes pode orientar investimentos de proteção para onde eles têm mais probabilidade de durar.

No Ártico, o risco aumenta rapidamente.

Um artigo de 2020 projetou que, à medida que grandes extensões de turfa ártica hoje presas sob solo permanentemente congelado descongelarem ao longo deste século, o carbono armazenado pode deixar de ser um sumidouro lento e tornar-se uma fonte persistente por longos períodos.

Uma solução climática com riscos

A lógica parece simples. Se drenar uma turfeira liberta o carbono, então voltar a inundá-la deveria reverter o processo.

Esse retorno de água - o reumedecimento, como os investigadores chamam - tornou-se a solução padrão em muitos locais. Mas a realidade não é tão direta.

O professor Robert Marchant, da Universidade de York, afirmou que os investigadores aprenderam que inundar, por si só, pode desencadear a emissão de metano e de outros gases muito mais potentes do que o dióxido de carbono.

“Sabemos que, quando a turfa está saudável, ela funciona como um sumidouro, retirando carbono do ar, mas quando é drenada por atividades agrícolas ou por ondas de calor, ela exala carbono a uma taxa alarmante”, disse Marchant.

Olhos no céu

Outra prioridade é conseguir enxergar as turfeiras com nitidez, antes de qualquer coisa. Muitas ficam sob dossel tropical denso ou em trechos remotos do Ártico, sem estradas, que raramente recebem equipas de levantamento.

Os autores defendem que satélites e aprendizado de máquina assumam uma parte maior do trabalho.

Esse avanço tecnológico pode ajudar a estimar a profundidade da turfa, acompanhar níveis de carbono em tempo quase real e sinalizar mudanças que indiquem que uma turfeira está a transformar-se num risco de incêndio.

Essa aposta em tecnologia liga-se a uma lacuna maior: as turfeiras quase não aparecem nos modelos climáticos usados para projetar o futuro, ainda que o comportamento delas possa puxar as emissões globais para um lado ou para o outro.

O conhecimento local importa

O roteiro também insiste numa dimensão menos técnica: ouvir as pessoas que vivem em turfeiras ou no seu entorno.

Comunidades indígenas e agrícolas frequentemente detêm conhecimento detalhado sobre lençóis freáticos sazonais, incêndios e espécies que os instrumentos científicos não captam.

Historicamente, esse saber tem sido deixado de fora dos planos de gestão.

Os autores sustentam que ignorá-lo causou danos reais e que os resultados de restauração tendem a ser melhores quando as vozes locais ajudam a orientar o trabalho.

O que muda a partir daqui

Ficou mais evidente do que antes: mesmo após décadas de pesquisa, os cientistas de turfeiras não contavam com uma lista única e acordada sobre onde estavam as maiores falhas de conhecimento. Essa lista agora existe - e é global.

Um estudo de 2021 concluiu que elevar o lençol freático em turfeiras drenadas poderia reduzir as emissões delas num montante equivalente a mais de 1 por cento do total de gases de efeito estufa de origem humana.

A partir disso, financiadores e decisores políticos passam a ter um conjunto de prioridades mais definido: quais perguntas apoiar, que lacunas atacar primeiro e que regiões precisam de mapeamento urgente.

Para Milner, o valor da nova lista está no foco, e não na amplitude.

“Turfeiras são cada vez mais reconhecidas como ecossistemas críticos para a ação climática, mas ainda não temos todas as respostas de que precisamos para as gerir de forma eficaz”, afirmou ela.

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