O mercado de compensação de carbono enfrenta um problema sério de credibilidade. Empresas e governos compram créditos que representam carbono supostamente mantido em florestas, solos ou biomassa.
O ponto fraco é que esse carbono pode voltar a ser emitido daqui a algumas décadas, caso a floresta pegue fogo ou o projeto deixe de existir.
Por isso, ao usar armazenamento temporário de carbono para “anular” emissões de CO2, críticos destacam - com razão - que a lógica física não fecha.
Investigando o armazenamento temporário de carbono
O CO2 permanece na atmosfera por séculos. Assim, uma árvore que retém carbono por 50 anos e depois morre não desfaz as emissões que deveria compensar.
Um estudo recente concorda com essa crítica, mas vai além do que a maioria dos críticos costuma fazer.
Os autores perguntaram: se o armazenamento temporário de carbono não pode compensar CO2 de forma legítima, então o que ele pode compensar legitimamente? A resposta, segundo eles, é mais útil do que parece à primeira vista.
A pesquisa foi liderada pelo Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA), em colaboração com vários contribuintes internacionais.
O problema com o metano
Alcançar emissões líquidas zero é, em princípio, relativamente simples para fontes cujas emissões podem ser eliminadas com tecnologias já disponíveis.
A dificuldade aumenta muito em setores em que a emissão é um subproduto inevitável da própria atividade.
A agricultura é o exemplo mais claro. Rebanhos e arrozais inundados emitem metano. Dá para tornar esses sistemas mais eficientes, mas não é possível fazer uma vaca parar completamente de produzir metano.
Para países com grande peso do setor agropecuário - Nova Zelândia, Brasil, Austrália e grande parte da África Subsaariana - isso cria um impasse persistente que cortes de emissões, por si só, não conseguem resolver integralmente.
O metano é um gás de efeito estufa muito potente, porém se comporta de maneira bem diferente do CO2 na atmosfera.
Enquanto o CO2 se acumula e permanece por séculos a milênios, o metano se decompõe com relativa rapidez, em poucas décadas.
A ideia central do novo estudo é que essa diferença muda radicalmente a forma correta de pensar compensações.
Emissões de metano e armazenamento de carbono
“Nem todos os gases de efeito estufa se comportam da mesma forma, e nem todo armazenamento de carbono precisa ser permanente para ser genuinamente útil”, afirmou o coautor Thomas Gasser, pesquisador sênior do IIASA.
“A remoção de dióxido de carbono (CDR) temporária tem valor climático real, mas apenas quando é associada ao tipo certo de emissões.”
Como o metano e o armazenamento temporário de carbono influenciam o clima em escalas de tempo semelhantes, eles podem ser pareados de modo legítimo - algo que não ocorre quando se tenta combinar CO2 com armazenamento temporário.
Em condições adequadas, o impacto climático das emissões de metano e o benefício climático de uma remoção temporária de carbono podem, de fato, se anular.
Um olhar mais de perto para os números
Os pesquisadores criaram uma estrutura, baseada nas métricas climáticas já usadas pelo IPCC e pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que transforma esse princípio em valores concretos.
Para neutralizar o impacto climático de um quilograma de metano, as estimativas indicam que seria necessário remover e armazenar cerca de 498 quilogramas de CO2 por 20 anos, em algo como bioplásticos.
Como alternativa, armazenar aproximadamente 101 quilogramas por 100 anos - por exemplo, em madeira durável empregada na construção - poderia gerar um benefício climático comparável.
Segundo o estudo, essas proporções se mantêm relativamente estáveis em diferentes horizontes temporais, o que torna o método viável para uso prático.
“Nosso estudo buscou responder à seguinte pergunta: se a CDR temporária não pode compensar CO2, o que ela pode compensar legitimamente?”, disse o autor principal Yue He, da Universidade de Pequim.
“Desenvolvemos uma estrutura baseada na física para identificar onde a CDR temporária tem, sim, um papel válido e quantificável na contabilidade climática.”
Uma nova abordagem para a contabilidade climática
Colocar isso em funcionamento exigiria uma mudança relevante na forma como a contabilidade climática é feita.
Hoje, a maioria das metodologias trata os gases de efeito estufa como amplamente intercambiáveis. O estudo argumenta que isso esconde uma distinção física essencial entre gases que permanecem por séculos e aqueles que se degradam em poucas décadas.
Os autores propõem o que chamam de estrutura de “duas cestas”. Nela, forçantes climáticos de vida curta, como o metano, seriam monitorados separadamente dos gases de longa permanência, como o CO2.
Em seguida, regras de compensação distintas seriam aplicadas a cada grupo, conforme seu comportamento real na atmosfera.
Há, porém, uma ressalva importante. Como as emissões de metano na agricultura são contínuas, e não um evento isolado, a remoção temporária de carbono precisaria ser implementada de forma contínua para manter o benefício climático.
Isso não constitui uma solução permanente. Trata-se de uma estratégia de gestão contínua que, ainda assim, é cientificamente defensável e tem utilidade prática para setores em que a descarbonização total segue fora de alcance.
Limitações do estudo
Usar armazenamento temporário de carbono para compensar metano pode ser uma ferramenta legítima em circunstâncias específicas. Mas isso não é um salvo-conduto para adiar cortes de emissões onde reduções são possíveis.
“Em vez de forçar a CDR temporária a caber em uma estrutura desenhada para soluções permanentes, distorcendo a contabilidade e enfraquecendo metas climáticas, mostramos que existe um papel legítimo e quantificável para ela, especialmente em setores difíceis de reduzir”, disse o coautor Keywan Riahi, do IIASA.
Para países que lidam com emissões agropecuárias que, de fato, não podem ser eliminadas, isso representa uma contribuição relevante.
O trabalho também pode ajudar a construir uma base científica para uma abordagem que antes era descartada por completo - agora refinada para algo que pode ser defendido e quantificado.
O mercado de compensação de carbono conquistou boa parte de sua má reputação. Este estudo não o reabilita de maneira ampla.
Ele aponta um caso específico em que a ideia subjacente - armazenamento temporário como forma de compensação - é, de fato, sólida. Em um cenário de política climática repleto de falsas soluções, essa distinção faz diferença.
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