Durante muito tempo, a conservação partiu de uma premissa específica: a de que a natureza precisa ser protegida das pessoas. A lógica era simples - separar áreas, impedir a presença humana e administrar rigidamente as fronteiras.
Esse modelo, profundamente enraizado no pensamento ocidental, acabou moldando áreas protegidas e políticas de biodiversidade em diversos países.
Um novo estudo sustenta que essa visão tem falhado de maneira significativa.
Segundo os autores, parte da conservação mais eficaz realizada no planeta sempre foi conduzida por comunidades indígenas e locais - justamente aquelas que esse modelo costuma deixar de fora.
A pesquisa foi liderada por Giulia Mattalia, do Laboratório de Botânica da Universidade de Barcelona, e por Irene Teixidor, do Instituto Mediterrâneo de Biodiversidade e Ecologia Marinha e Continental, na França.
A conservação que já acontecia
A equipe analisou 242 artigos científicos e mapeou 343 práticas de manejo documentadas, voltadas a quase 1.000 espécies culturalmente significativas em diferentes regiões do mundo.
Entre as práticas identificadas estão a queima controlada, a coleta seletiva, a translocação de espécies e a modificação de habitats.
“Muitas práticas permaneceram invisíveis para a academia por causa do paradigma da natureza intocada, uma visão eurocêntrica que ignora como os seres humanos moldaram paisagens por milênios”, afirmou Mattalia.
“Além disso, a epistemologia dicotômica natureza–humano – positivista e ocidental – manteve uma distinção rígida entre humanos e natureza, o que dificulta compreender relações recíprocas.”
Essas comunidades não são meras espectadoras da conservação. Em muitos casos, são elas que a realizam - e com resultados superiores aos de instituições formais.
O artigo se soma a um conjunto de estudos que indica que terras sob gestão indígena e local frequentemente sustentam mais biodiversidade do que áreas protegidas convencionais.
Práticas de cuidado ambiental
O trabalho apresenta uma nova estrutura conceitual para classificar práticas de cuidado ambiental em três níveis: aquelas voltadas a populações de uma espécie específica, as que se dirigem a conjuntos mais amplos de espécies e as que abrangem ecossistemas inteiros ou paisagens.
O objetivo é estabelecer uma linguagem comum para comparar e compreender práticas oriundas de contextos culturais muito distintos.
Pesquisas anteriores tiveram dificuldade em alcançar isso porque, em geral, concentravam-se de forma estreita em determinados táxons ou em regiões específicas.
Comunidades indígenas e espécies culturais-chave
A estrutura proposta é exemplificada por uma série de estudos de caso, que mostram como a relação entre pessoas e espécies se expressa, de fato, no cotidiano.
Por exemplo, a comunidade Huancavilca, no litoral do Equador - uma cultura pré-colombiana - mantém há muito tempo o manejo da palmeira-do-marfim, espécie que hoje sofre pressão do desmatamento.
No Canadá, o povo Haida preserva práticas tradicionais relacionadas ao abalone, espécie atualmente ameaçada por pesca excessiva, caça ilegal e mudanças climáticas.
No Nepal, a cultura Chepang sustenta uma relação com a árvore-da-manteiga que manteve, ao longo de gerações, tanto a comunidade quanto a espécie, apesar de oscilações de mercado e transformações ecológicas.
Em todos os casos, espécie e comunidade estão interligadas. Não é possível proteger uma sem cuidar da outra.
“Para protegê-las, a conservação deve se concentrar não apenas na espécie, mas em manter a relação de cuidado mútuo entre comunidades e espécies culturais-chave”, disse Mattalia.
Uma abordagem diferente para a conservação
O estudo não se limita a criticar: ele sugere um caminho adiante baseado em colaboração genuína, em vez de uma relação extrativa em que a ciência ocidental apenas examina práticas indígenas.
“Uma abordagem transdisciplinar envolve trabalhar juntos e com respeito, ao lado de quem pratica o cuidado ambiental, que mantém conhecimento e relações com a biodiversidade”, afirmou Teixidor.
Isso é relevante para políticas públicas tanto quanto para a pesquisa. A Estrutura Global de Biodiversidade Kunming-Montreal ainda não reconhece de forma adequada práticas de manejo indígenas como ferramenta de conservação.
Os pesquisadores defendem que isso precisa mudar para que as metas sejam atingidas de maneira realmente significativa.
“É essencial promover políticas que considerem os guardiões da biodiversidade tão importantes quanto a própria biodiversidade”, disse Mattalia.
“Há evidências científicas de que essa mudança de paradigma na conservação da biodiversidade é positiva para a natureza, como mostram nossos artigos e muitos outros, e também contribui para a justiça social e a descolonização das estratégias de conservação”, acrescentou Teixidor.
O problema mais profundo
No centro da discussão está uma pergunta sobre quem tem seu conhecimento reconhecido - e quem não tem.
A ciência formal da conservação frequentemente tratou o conhecimento indígena e local como um conjunto de dados a ser extraído, e não como um corpo acumulado de compreensão, construído ao longo de séculos de observação cuidadosa e prática.
Esse enquadramento tem custos. Quando comunidades são removidas das terras que manejam, parte desse conhecimento se perde.
Além disso, estratégias de conservação acabam sendo desenhadas sem a participação de quem melhor entende aqueles ecossistemas.
E, com isso, comunidades responsáveis por algumas das ações ambientais mais importantes do planeta seguem invisíveis em estruturas de política pública que, em tese, deveriam proteger a natureza.
Práticas que funcionam há séculos
“Muitas dessas práticas existem há centenas de anos e contribuem para manter paisagens de alto valor natural e cultural”, disse Teixidor.
O modelo da natureza intocada - a ideia de que a natureza seria um lugar separado das pessoas - nunca foi exatamente verdadeiro. As paisagens que hoje tentamos proteger com urgência, na maioria dos casos, foram moldadas por mãos humanas ao longo de milênios.
Reconhecer isso não é uma concessão ao desenvolvimento. É uma descrição mais fiel de como o mundo vivo realmente funciona.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário