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Zona crepuscular do oceano: a teia escura e a pesca em profundidade no Havaí

Barco à superfície com homem usando máscara monitorando peixes e redes de pesca em águas claras perto de ilhota ao fundo.

A zona crepuscular do oceano fica entre 200 e 900 metros abaixo da superfície - e abriga, em peso, mais peixes do que qualquer outra faixa do mar. Entre cientistas e gestores da pesca, ela costuma ser descrita com uma palavra: não explorada. Seria a fronteira final.

Só que os registros de captura da frota de espinhel do Havaí, alguns remontando a 1917, contam outra história. Um estudo recente analisou esses dados - além de conjuntos semelhantes de outras regiões do planeta - e concluiu que a pesca em águas profundas acontece há décadas. Apenas não vinha sendo devidamente contabilizada.

Peixes na zona crepuscular

Durante anos, pesquisadores do oceano e formuladores de políticas repetiram expressões como “não explorada” e “fronteira final” quase sem contestação.

A lógica era simples: a zona crepuscular seria funda demais e distante demais para que a pesca em grande escala tivesse causado impacto perceptível.

Martin Arostegui, pesquisador associado da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) e autor principal do novo estudo, diz que os registros de captura não confirmam essa visão.

Ao vasculhar os dados, sua equipa encontrou algo que estava à vista de todos - só que misturado às estatísticas de outras pescarias.

A teia escura

Para designar os peixes envolvidos, a equipa de Arostegui propôs um nome: a teia escura. Trata-se de espécies maiores do meio da coluna d’água, como pomfretes, cavalas-serpente e opás.

Elas são grandes o bastante para escapar das redes de pesquisa de malha fina que os cientistas baixam na zona crepuscular, mas têm o tamanho ideal para serem fisgadas por um espinhel comercial.

O pomfrete-de-escamas-grandes, um dos mais estudados, chega a mais de 1 metro de comprimento. Um estudo separado, com marcação por satélite, indicou que ele vive em tempo integral na camada profunda e escura, subindo à superfície à noite para se alimentar.

O histórico do espinhel no Havaí

O Havaí oferece o rasto documental mais claro. A frota de espinhel do estado começou a perseguir atuns e peixes-de-bico em 1917 e permaneceu pequena durante a maior parte de um século. Depois, no início da década de 1990, melhorias no equipamento e novos mercados de exportação mudaram o cenário.

Em cerca de 20 anos, o esforço aumentou mais de cinco vezes - e os anzóis passaram a operar em profundidades maiores. Junto com isso, a composição das capturas também se alterou.

Pomfretes e opás tornaram-se cada vez mais relevantes nas descargas. O preço dessas espécies subiu. Ao fim desse período, a pescaria já não era, na prática, uma pescaria de atum.

Outras pescarias de espinhel pelo mundo exibem o mesmo desvio gradual. Em algumas, a massa desembarcada de peixes do meio da coluna d’água já supera, em peso, a de atuns e peixe-espada - espécies que motivaram as viagens das embarcações.

Já morrem ao serem devolvidos

A captura dirigida é apenas parte do problema. Os peixes-lanceta são predadores do meio da coluna d’água, compridos e finos como fitas, e não têm mercado relevante. As tripulações recolhem milhares e devolvem-nos ao mar.

Mas devolver não é o mesmo que retornar vivos. Estudos estimam a mortalidade da teia escura entre 80 e 100%.

Com isso, esses peixes afundam para fora da teia alimentar. A biomassa desaparece independentemente de o registo indicar, ou não, que houve captura.

Menores e em menor número

O padrão não é apenas local. Arostegui e os coautores identificaram forte pressão de pesca sobre peixes do meio da coluna d’água em diferentes oceanos.

Três sinais aparecem repetidamente: quedas populacionais, indivíduos cada vez menores e capturas que não entram nos relatórios.

A zona crepuscular é imensa - ocupa cerca de um quinto do volume do oceano. Um estudo anterior estimou que a biomassa de peixes que vivem ali pode ser dez vezes maior do que sugeriam números mais antigos.

É muita vida a desaparecer numa camada onde as ferramentas mais comuns - redes pequenas de pesquisa e levantamentos de superfície - não conseguem observar a perda.

Predadores e a bomba

A remoção desses peixes gera efeitos em duas direções. Atuns e peixe-espada dependem fortemente da zona crepuscular como fonte de alimento. Um artigo de 2025, sobre três predadores de topo no noroeste do Atlântico, mostrou que essa dependência é marcante.

Peixes da zona crepuscular representaram cerca de metade da dieta - por vezes, mais. Se forem retirados em quantidade dessa camada intermediária, é provável que os predadores acima sintam o impacto, embora ainda se esteja a determinar exatamente como.

Há também um componente climático. Muitos peixes do meio da coluna d’água sobem em direção à superfície todas as noites para se alimentar e descem novamente antes do amanhecer.

Cientistas acreditam que essa migração diária pode ajudar a transportar carbono da superfície para o oceano profundo, mantendo-o fora da atmosfera.

Pressão de pesca revelada

O que esta análise traz de novo não é a ideia de que peixes do meio da coluna d’água estão a ser capturados - havia suspeitas, há muito tempo, de que a pressão estava a aumentar.

A novidade é a escala - e o facto de ela ter permanecido escondida, por décadas, em registos de captura classificados como atum e peixe-espada.

“Nós sabemos surpreendentemente pouco sobre esses peixes, apesar da provável importância deles para os ecossistemas oceânicos. Essa lacuna de conhecimento dificulta entender como a pressão de pesca pode já estar a afetar as teias alimentares e o armazenamento de carbono no oceano”, disse Camrin Braun, oceanógrafa da WHOI e coautora do estudo.

Proteger os peixes da zona crepuscular

Os autores defendem relatórios de captura mais precisos e uma contabilização espécie por espécie. Para eles, os peixes do meio da coluna d’água precisam entrar nos mesmos modelos de gestão que já regulam atuns e peixe-espada.

Nada disso exige tecnologia inédita - apenas registos mais rigorosos nas agências que já supervisionam as pescarias em alto-mar.

A pesca industrial na zona crepuscular não é um problema do futuro. Ela ocorre há décadas, só que sob outra etiqueta.

Agora, a questão é se a gestão pesqueira vai acompanhar o ritmo antes de a teia escura deixar de funcionar.

Crédito da imagem: Peixe-olho-de-barril (Macropinna microstoma), foto de MBARI.

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